29.9.10

Tonto





Tonto era um homem muito bonito e muito elegante também. Mas Tonto sentia-se triste - porque mesmo sendo bem aparentado, e até era rico, ele não tinha com quem conversar.
Todos os dias ia ao trabalho, mas era tudo tão solitário, não conseguia sequer ajuda; e era realmente difícil viver assim. Pena que não tinha amigos. Na hora do almoço, Tonto almoçava sozinho (e até perdia a fome).

Um dia entrou em cartaz um filme que ele queria muito ver. Mas nas horas de gargalhar ele não podia, porque gargalhar só é bom quando se tem quem gargalhar junto. E até desistiu da pipoca porque comer pipoca sozinho não tem graça, porque pipoca rima com dividir.

No dia seguinte, no trabalho, Tonto tentou de muitas formas arranjar um amigo:
-Oi, você quer ser meu amigo?
Mas o que ele não sabia é que para se fazer um amigo tem-se que conhecer a pessoa, ter gostos parecidos, fazer coisas divertidas juntos; porque aí a amizade vai sendo construída, que nem se constrói uma casa. Depois de passar o dia perguntando para todo mundo se queriam ser amigos dele, Tonto foi para casa.

Tonto estava tão, tão triste, pois pensava que nunca iria ter um amigo. Parou na rua, sentou num banco perto e começou a chorar. De repente:
-Oi, por que você está chorando?
Tonto se assustou, deu um pulo do banco (e quase cai para trás). Era uma menina, e ele percebeu que ela esperava impaciente por uma resposta. Tonto enxuga as lágrimas e diz:
-É porque eu nunca vou ter um amigo.
A menina se entristece um pouco e diz:
-É, eu também acho que não.

Eles se olham e sorriem.
Fizeram uma nova amizade.

23.9.10

"pois, segundo parece - e o seu caso o prova -, não escrevemos só com os dedos, mas com a pessoa inteira. o nervo que governa a pena enrola-se em cada fibra do nosso ser, amarra-nos o coração, atravessa-nos o fígado."
Orlando - V. Woolf

22.9.10

foi de guarda-sol e biquíni que foi ver o mar.
e ela entrou no mar pra navegar.
teve dó de si e pôs-se a chorar.

foi de guarda-sol e biquíni que ela voltou à casa,
chorosa, molhada de mar.
foi assim que acabou a história.

14.9.10

ela era tão pervertida.
mas sua perverção era magnética, todos ao redor sentiam-se atraídos e não tinham vergonha por isso.
casaram e permaneceram felizes.
tiveram um filho, mas o menino nasceu com os olhos azuis.
todos pensaram que ela havia traído, mas ninguém lembrou do bisavô que tinha os olhos azuis; nem ela mesma lembrou.
e a pobrezinha sofria, não conseguia sequer olhar para o filho.
o menino sofria, ninguém olhava para ele.

foi então que a mãe decidiu resolver isso de uma vez por todas.
foi na cozinha, chamou o pai, o filho e disse para o marido:
-a única coisa que ele não tem seu são os olhos, não é?
com um golpe violento segurou o menino pelos cabelos e com o-negócio-de-abrir-côco arrancou os olhos do menino fora.
o menino gritava.
a mãe sentia-se melhor.
o pai sentia-se melhor.

alguns meses depois, estavam a mãe e o pai olhando um álbum de retratos.
viram uma foto do bisavô e aí descobriram que o menino tinha pego um gene do tataravô.

nessa noite o menino foi dormir agarrado ao potinho que estavam seus olhos.

12.9.10

das coisas que a gente lembra

hoje, mexendo nos livros da estante, peguei uns livros que adorava (e ainda adoro) quando era criança. lembro que uma das coisas que adorava fazer quando pequena, era ir para a Biblioteca Pública, aquela do Dragão do Mar; já que eu morava na Praia de Iracema e não tinha amigos ( mas isso de não ter amigos não era algo compreensível por mim). e nessa de mexer nos livros e ir para a biblioteca, lembrei que outra coisa que eu fazia era brincar de imaginar sozinha. mas o que me fez chegar ao ponto de escrever sobre isso é que lembro que todos os personagens que fingia ser, normalmente, era eu mesma, só que com 19 anos - e eu deveria ter meus 7, 8 anos. não sei por que dessa aleatória de 19 anos, mas era. e hoje, tenho 19 anos, mas não sou nem um pouco parecida com o que eu imaginava que seria; ou mesmo com o que a minha "personagem" de 19 anos era. e isso é engraçado, porque talvez se eu continuasse com a vida que eu tinha, morando com minha mãe, enfim, talvez eu até, hoje, fosse o que eu deveria ser, ou como eu deveria parecer.
lembro que a imagem que eu tinha era eu, com cabelos longos, lisos (coisas de criança, né?), morena, usando calça jeans (que aparentemente é sinal de "adultecer") e camiseta preta, e independente. como algo realmente independente. não que eu achasse que com 19 anos seria assim, mas é que "eu" aos 19 anos exalava independência, meio que madura, segura de si.
e, acredito, que o mais legal de lembrar dessas coisas, é que a mesma emoção, ou o mesmo sentimento de épocas passadas continuam aqui, como se só bastasse a lembrança para ter aquilo tudo de volta: o cheiro, o presente, a infância.
eu conheci uma menina que mentir ela podia - e fazia sem culpa, porque para ela mentir era só uma maneira diferente de contar histórias. e quem se importa de ter as histórias misturadas, dizia ela, se tudo misturado é que é mais divertido?


http://www.youtube.com/watch?v=uwVhZ4m937o&feature=related

9.9.10

Jess Haimes me contou essa história:

Era manhã e todos tinham aula no primeiro horário. Hanna parecia distraída, não prestava muita atenção ao que a professora dizia quando sua distração foi quebrada por um burburinho crescente: uma menina, que Hanna não lembrava o nome, pôs-se a vomitar. Era um vômito fétido, amarelo. A professora tentou levá-la para fora da sala, mas não havia mais tempo, a menina havia começado a transformação.
Hanna estava num canto de sala e tinha uma visão privilegiada da cena; e esta foi a cena que Hanna relatou aos paramédicos quando chegaram: a menina ficou no meio da sala, como de propósito para que todos pudessem vê-la, e vomitava muito, como se seu corpo não mais aguentasse algo dentro de si, como se quisesse desesperadamente que algo saísse, como se estivesse alérgica a si mesma. Uma hora ela parou, apoiou as mãos nos joelhos, cansada de violentos esforços, e, quando tudo parecera acalmar-se, ela iniciou uma nova ânsia de vômito. Ninguém manifestava mais nenhum som, e estavam tão envolvidos com o caso que sequer pensavam em sair dali.
A menina estava cansada (e acho que a essa etapa é justo que lhe coloquemos um nome: J.), deitou-se a contra-gosto no próprio vômito; J. tornou a ter ânsias que cresciam a cada tempo, e cresciam, cresciam; e ela parecia não aguentar mais, e quando todos pensaram que a ânsia cessaria, J. vomitou seu pâncreas. Os alunos já não piscavam, a comoção era geral. E com seu par de mãos em chão e em posição de cachorro, J. vomitou seus órgãos, um a um, e todos prescientes por uma ânsia que parecia mortal.
Os últimos órgãos a serem vomitados foram os pulmões, e pareciam tão agarrados, tão dispostos a restarem ali, que fizeram-na soltar o primeiro som daquela tortuosidade. J. restava seca, imóvel, agora em posição fetal. (Nessa parte da história os paramédicos não acreditavam em Hanna, e se entreolhavam como quem está participando de uma história de terror; mas meu caro amigo Jess jura que aconteceu.) Todos foram se aproximando, pouco a pouco; uns puseram-se a limpar o vômito, outros a colocar os órgãos expelidos em potes de vidro. As únicas que restavam imóveis eram Hanna, que permanecia em seu canto de sala; e a professora, que se metera embaixo da mesa e parecia querer colo de mãe.
J. começou a se mexer, a balbuciar algo, levantou-se e seu corpo pôs-se a virar do avesso. Ela ia se virando de dentro para fora. Ela, enfim, saia do casulo.
Os alunos deixaram-na no chão, virada do avesso, em posição semi-fetal, e saíram, um a um, todos meio invejosos.

8.9.10

procrastinar é algo da moda.
mas como eu não sei o que é
vou procrastinando pelo mundo afora.

5.9.10

Romano despiu-se. seu pêlo arrepiou-se. pensou estar encolhendo, tamanha era sua nudez. estava prestes a conhecer o sexo - ou aquilo poderia (ou mesmo deveria) ser chamado de amor? olhou o outro que também se despia; seu corpo tornara-se viril, o desejo desconhecido crescia. o outro chamou:
-Vem.
Romano aproximou-se da cama. o outro contornou seu corpo, alisando-o, apalpando-o, como se não fosse algo crido. exalavam, juntos, algo maior, algo tão desejável, inalcançável, que o tornara mais viril. era acarinhado por entre as pernas, tendo seu sexo tocado - ora com as mãos, ora com a boca, ora com o sexo do outro.
o contorno do seu corpo, tratando-o, defrontando-o. indo defronte, em guerra com seu desejo e



amanheceu, ele e o dia, mas ele como se tivesse engolido um chiclete. seu estômago doía; lembrou-se da noite anterior, dos pedidos de desculpas, das desculpas aceitas, das pazes feitas. Romano precisa levantar-se e vomitar todo aquele jantar que se obrigara a comer.

2.9.10

morte e desabafo tardio

"a gente passa a vida tentando conquistar tudo pra perder de uma hora para outra."

No auge da minha depressão de vida, de querer desesperadamente (quase) sair daqui, de ir morar numa quitinete com aluguel de 300 reais, de continuar a faculdade e de ter um emprego medíocre mesmo, para conseguir viver sozinha, de verdade, sem ter que depender de favores ou mesmo de obrigações familiares; eu, nesse auge, sofro ainda mais após saber da morte de um primo de uma amiga. um primo que, segundo ela, passou a vida toda lutando contra a fome, e que, quando consegue, leva um choque e tem uma morte fulminante. A morte é corroedora. Dói.
E ela diz: a vida não vale a pena, Mel.
E aqui estou, sofrendo, pensativa, desejando que todo esse mal, toda essa praga se acabe.
Desejando uma vida medíocre, como nunca desejei. Porque tenho a impressão que sendo medíocre, não sofreria tanto. Não sentiria tanto a vontade de mudança, de ser melhor, de melhorar alguém.
O ruim de se importar com as pessoas, e com as coisas que as envolvem, é que você sofre. Você luta por alguém, por você mesmo. E depois você sofre por perceber que esse cuidado, essa atenção não são recíprocas, não são reconhecidas.
E aí vem toda a lenda de não ter minha mãe por perto e da falta que eu sinto disso, e do quanto eu mascaro todo esse sentimento, essa falta; para não aparentar fraca, ou mesmo para aparentar forte; sendo que essa distância me mantém de mãos amarradas, porque percebo que toda essa independência que exalo é falsa, é fingida. É quase uma morte lenta. É uma dor abafada, mórbida.

vidas alheias

eu acho uma coisa tremendamente triste uma mãe ligar para um filho e o filho não ter coragem de contar os problemas, as vontades, porque sabe que a mãe não vai ajudar. e ainda o filho se sente mal por ter contado.
ser sozinho e ao mesmo tempo ter alguéns é algo tremendamente triste.

Marta, é dinheiro que ele quer. Não atenda.

Contas em papel

Maria, vem pegar o teu cochilo que tu esqueceu na sala!