9.9.10

Jess Haimes me contou essa história:

Era manhã e todos tinham aula no primeiro horário. Hanna parecia distraída, não prestava muita atenção ao que a professora dizia quando sua distração foi quebrada por um burburinho crescente: uma menina, que Hanna não lembrava o nome, pôs-se a vomitar. Era um vômito fétido, amarelo. A professora tentou levá-la para fora da sala, mas não havia mais tempo, a menina havia começado a transformação.
Hanna estava num canto de sala e tinha uma visão privilegiada da cena; e esta foi a cena que Hanna relatou aos paramédicos quando chegaram: a menina ficou no meio da sala, como de propósito para que todos pudessem vê-la, e vomitava muito, como se seu corpo não mais aguentasse algo dentro de si, como se quisesse desesperadamente que algo saísse, como se estivesse alérgica a si mesma. Uma hora ela parou, apoiou as mãos nos joelhos, cansada de violentos esforços, e, quando tudo parecera acalmar-se, ela iniciou uma nova ânsia de vômito. Ninguém manifestava mais nenhum som, e estavam tão envolvidos com o caso que sequer pensavam em sair dali.
A menina estava cansada (e acho que a essa etapa é justo que lhe coloquemos um nome: J.), deitou-se a contra-gosto no próprio vômito; J. tornou a ter ânsias que cresciam a cada tempo, e cresciam, cresciam; e ela parecia não aguentar mais, e quando todos pensaram que a ânsia cessaria, J. vomitou seu pâncreas. Os alunos já não piscavam, a comoção era geral. E com seu par de mãos em chão e em posição de cachorro, J. vomitou seus órgãos, um a um, e todos prescientes por uma ânsia que parecia mortal.
Os últimos órgãos a serem vomitados foram os pulmões, e pareciam tão agarrados, tão dispostos a restarem ali, que fizeram-na soltar o primeiro som daquela tortuosidade. J. restava seca, imóvel, agora em posição fetal. (Nessa parte da história os paramédicos não acreditavam em Hanna, e se entreolhavam como quem está participando de uma história de terror; mas meu caro amigo Jess jura que aconteceu.) Todos foram se aproximando, pouco a pouco; uns puseram-se a limpar o vômito, outros a colocar os órgãos expelidos em potes de vidro. As únicas que restavam imóveis eram Hanna, que permanecia em seu canto de sala; e a professora, que se metera embaixo da mesa e parecia querer colo de mãe.
J. começou a se mexer, a balbuciar algo, levantou-se e seu corpo pôs-se a virar do avesso. Ela ia se virando de dentro para fora. Ela, enfim, saia do casulo.
Os alunos deixaram-na no chão, virada do avesso, em posição semi-fetal, e saíram, um a um, todos meio invejosos.

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